Depois de um dia como ontem, não existe nenhuma chance de acordar pro café da manhã. O cansaço e as dores no corpo impedem qualquer passeio com atividades físicas. A única solução, que une o útil ao agradável, é caminhar pela cidade.
Realmente, Bariloche tem seu charme. A praça na beira do lago, a catedral imponente, o próprio lago Nahuel Huapi, é tudo muito bem cuidado. O tempo agradável nesta época do ano é mais um convite para andar sem rumo pelas ruas e parques. Um São Bernardo é a atração em uma praça. Já em um gramado um pouco mais à frente, um casal de bandurria passeia tranquilamente, sem se incomodar com um turista intruso tentando se aproximar para tirar fotos.
À noite, vamos comer uma pizza em um lugar indicado por Lara, a italiana que conhecemos em El Calafate. A Quilmes escura, que bebemos durante a refeição, nos lembra da cerveja artesanal do Konna Bar. Uma boa pedida antes de ir embora de Bariloche. Dois pints pra cada, aproveitando o happy hour, pra dormir feliz.
Ao meio-dia encontramos Ítalo e Renatim, os cearenses do Largando Tudo, para ir ao Cerro Catedral, uma montanha gigantesca com neve, famosa por sua estação de esqui. Por enquanto, não é possível esquiar, só daqui uns 15 dias, pelo que dizem. Ainda não tem neve o suficiente.
A diversão é subir até o topo em um teleférico, onde a neve já tá legal. Quer dizer, essa é a diversão dos outros. A nossa é subir a pé. Um guarda-parque diz que demora quatro horas, mais ou menos. “Tranqui!” Vamos lá.
O começo é íngreme, sem nada de neve. Só a vegetação rasteira predominante na Patagônia. Mal começamos a subida e paramos pra admirar a paisagem e repor o fôlego. Não necessariamente nessa ordem, pra ser sincero. Estamos ofegantes. A dificuldade em respirar lembra a altitude da Bolívia, por onde Ítalo e Renatim já passaram. E trouxeram a solução de lá: folha de coca pra todo mundo mascar.
A subida continua acentuada. Pra ganhar tempo, vamos cruzando o caminho em zigue-zague feito na montanha. Logo chegamos a uma estradinha de terra. Seguimos um pouco por ela, manchada em alguns trechos pela neve.
Dá-lhe montanha outra vez, mais neve, frio aumenta, começa a nevar, sobe mais, vento mais forte, temperatura diminui, um escorrega no gelo, outro tira foto. A diversão começa a ser vencida pelo cansaço. Passamos por uma parada do teleférico. A neve, fofa, vai até o joelho.
Depois de três horas e pouco, esgotados e molhados pela neve, chegamos. Dezenas de famílias brincam de escorregar. Estão todos bem alimentados, agasalhados e descansados. Nós só queremos saber de voltar logo. O sol já tá baixando. E pra ajudar, ninguém teve a brilhante ideia de trazer algo pra comer.
Pra baixo, nem todo santo ajuda. Renatim tem o joelho podre e a mão congelada. Ítalo está com um all-star. Eu, com bota e meia térmica quase não sinto meus pés. Chapola empresta sua luva pra Renatim, que nem consegue mexer a mão para vesti-la. Vamos em passo lento.
Duas horas, alguns escorregões e muita tremedeira depois, estamos no ponto do ônibus, torcendo para que o frio de -9ºC não desça a montanha atrás da gente. Uma ideia de jerico mas que, no final, valeu a pena. Subir de teleférico não teria a metade da graça de chegar lá depois de tanto esforço.
As últimas forças serviram para tomar um banho quente, comer igual um ogro, secar duas garrafas de vinho e capotar embaixo das cobertas e longe da neve.
Já tarde, depois de uma certa dificuldade de acordar, saímos do hostel para ir, de ônibus circular, até o Cerro Otto, onde pode-se pedalar ao redor do morro. Um passeio recomendado por muita gente.
Conversando em pé no busão, um cara barbudo, com um gorrinho peruano igual ao que comprei em Buenos Aires, pergunta pra gente.
- De dónde son?
- De Brasil.
- Que ciudad?
- São Paulo. Y vos?
- De Brasil también. Fortaleza.
- Então a gente pode falar em português, em vez desse portunhol mequetrefe, né não?
Ele, Ítalo, e seu amigo, Renato, também são publicitários. Também pediram demissão no emprego. E também estão viajando pela América do Sul. Criaram um projeto chamado Largando Tudo, onde postam fotos, vídeos e relatos da viagem. Coisa de publicitário, não tem jeito. Vamos conversando até eles descerem em um ponto, no Cerro Campanário. O nosso é o próximo.
O aluguel da bicicleta pra fazer o passeio é de AR$ 90,00 (R$ 45,00). Caro! Considerando que temos só três horas e meia, já que ele fecha às 17h, fica muito mais caro! Deixa pra lá. Decidimos voltar a pé até o Cerro Campanário, onde não temos que pagar.
Damos uns 50 passos e cruzamos com uma menina, que pergunta sobre o aluguel e o passeio de bike. Explicamos. Ela concorda sobre ser caro e resolve ir com a gente.
Alena é alemã, tem 19 anos, mora em uma cidade na grande Buenos Aires, onde faz trabalho voluntário com crianças carentes.
No Cerro Campanário, subimos por uma trilha até o topo, entre diversas árvores. Praticamente escalamos. O danado do morro é alto e íngreme. Todo esforço tem uma recompensa, dizem. E que recompensa! A montanha está rodeada por um lago com água incrivelmente azul. Um incauto poderia se perguntar se é o céu que reflete o lago, ou o lago que espelha o céu. Entre eles, o vento passeia livremente.
É assim que funciona em um mochilão: saímos em dois do hostel, voltamos do passeio em cinco. Caminhamos por 5 km até achar um lugar na beira da estrada que recarregue o cartão do ônibus. Este é o mal de algumas cidades argentinas. Os ônibus circulares só aceitam cartão magnético. Compra, recarrega e anda. Se acaba o saldo, ferrou!
À noite, como combinado e já é de costume, vamos a um pub, na mesma rua do hostel. Chama Konna Bar. O happy hour vai até as 22h. Compra um pint de cerveja artesanal, ganha outro. O preço é AR$ 20,00. Nesse esquema, cada uma sai por AR$ 10,00. Pra ficar bem claro: R$ 5,00 cada pint de uma cerveja artesanal deliciosa em um pub de Bariloche. Com amendoim incluso, pra petiscar. Seguimos o ritual de experimentar todas: rubia, roja, negra. A melhor é a escolhida pro repeteco. A escura sempre ganha. Acho bem difícil esse placar mudar até o final da viagem. Mas é bom sempre continuar experimentando, vai saber.
No hostel, aprendemos a jogar gamão com um australiano gente boa. É a diversão da galera. Tomar vinho e jogar gamão até o vinho acabar ou o sono bater. Aí sim!
Billy Bragg & Wilco – Way Over Yonder In The Minor Key
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Domingão. Dia de acordar, arrumar mochila, comer algumas empanadas no café da manhã e ficar pronto pra ir embora. Não sem antes sermos convencidos pelo dono do hostel de ir ao Mirante do Río Azul. Concordamos. Imperdoável visitar El Bolsón e não conhecer nada. Principalmente com o dia lindo que faz hoje. Como o tempo é curto, subimos os 5 km de estrada de terra de táxi. Nesse caso, o fim justifica os meios.
Os olhos até doem, de tanta beleza. Daqui de cima, vê-se todo o vale, por onde o rio, de um azul-turquesa, parece mais uma pintura. Um alento para quem está acostumado com paisagens monocromáticas do inverno da Patagônia.
Andamos mais um quilômetro pela estrada, até a Cabeza del Indio, uma formação de paredes rochosas com o formato de cabeça humana. Uma trilha pequena, de 20 minutos, leva até pontos mais altos, perfeitos para admirar uns minutos mais antes de deixar El Bolsón. Outra cidade que pretendo visitar com mais calma para conhecer tudo.
Daqui, toca pra Bariloche. Mais umas horinhas de ônibus e chegamos ainda antes de escurecer. Não sei se pela expectativa tão grande ou por ter visto paisagens tão deslumbrantes até agora, uma das cidades mais famosas da Argentina não chamou tanta atenção. E olha que foi uma boa caminhada da rodoviária até o hostel. O negócio é comer, dormir e amanhã, descansado, ver qualéquié.
Por ser baixa temporada, o hostel não serve café da manhã. O que é ótimo, assim comemos algo na feira artesanal que rola em alguns dias da semana. E nem precisamos acordar tão cedo. É uma feira hippie, com muitos objetos de decoração, bijuteria e roupa. Tudo bem feito, com bom gosto e caro. Pra quem gosta de duendes, é parada obrigatória. Tem de todos tipos e tamanhos. Se acordasse de repente aqui, diria que estou em Trindade ou São Tomé. Exceto pela comida. Meu desjejum é um matambre, um sanduíche frio com carne bastante temperada e salada. Muito bom!
O tempo instável dificulta a decisão do que fazer. Chove por 10 minutos, faz sol por outros 10. Quando essa brincadeira besta acaba, saímos com destino ao Mirante do Río Azul. Nem 10 minutos de caminhada, lá vem água de novo. Desistimos. O resto do dia vai ser no hostel mesmo.
À noite, depois de comer, ainda na cozinha conversando e tomando vinho, ouvimos uma gritaria e assobios na sala. Corremos lá pra ver o que tá rolando. É aniversário do dono do hostel. O parabéns é cantado de uma forma inusitada: uma gaita de fole, um trompete e um tambor.
Devo estar tão feliz quanto o aniversariante. Eu adoro gaita de fole. Pra mim, a melhor parte dos filmes de guerras antigas, é quando o exército está em marcha e um músico vai na frente, tocando. O som é alegre e melancólico ao mesmo tempo. É como uma festa para celebrar a vida logo após um funeral.
Viajar é assim. Não esperar nada e acontecer de tudo!
A chuva não dá trégua. Durante toda a noite e manhã caindo água. Enquanto esperamos bater duas da tarde para ir à rodoviária, ficamos conversando e ouvindo músicas com as meninas que trabalham no hostel, Giovanna e Laura, e outros hóspedes que chegam e saem.
Primeiro fato: falar deixa a garganta seca. Nada melhor que esperar tomando uma cervejinha. Segundo fato: não experimentamos a cerveja artesanal da cidade, uma tristeza. Por pura coincidência e ironia do destino, tem pra vender aqui.
- Cada long neck custa 15 pesos?
- Isso mesmo.
- Pô, tá caro, a gente precisa economizar, não rola duas por 25?
- Ah, não posso. Quem manda é a Giovanna, tem que falar com ela.
Fazemos a pergunta para Giovanna.
- Tudo bem, mas tenho uma proposta. Faço esse preço se vocês avaliarem o hostel no site hostelworld.com como 100%.
- Fechado! Nem precisava pedir.
Valeu a pena. A cerveja é boa, e ainda deu um ânimo para sair na chuva. De mochila nas costas, corremos até o mercado, compramos empanadas prontas e vamos pro terminal. Chegamos famintos, molhados e com a comida gelada. O jeito é apelar pra cara-de-pau. Tem um café jeitosinho no canto da rodoviária. Vou até lá e pergunto se podem esquentar pra mim no micro-ondas.
- Você tem que pedir pra esquentarem onde comprou.
- Eu sei, mas comprei no mercado vindo pra cá, e não tenho onde esquentar. Vim correndo na chuva, se não conseguir esquentar aqui vou comer fria mesmo.
- Ah, tudo bem, dá aqui.
Agradeço umas oito vezes e saio. De barriga cheia, a viagem é tranquila. Aquela cochilada básica na maior parte da viagem, que dura quatro horas embaixo de chuva.
Mesmo com o tempo ruim, o ânimo prevalece. Dizem que El Bolsón é uma cidade muito bonita, imperdível pra quem viaja pela região. À noite e com chuva, não dá pra saber. Só vejo a touca da blusa que cai na frente dos meus olhos e as poças d’água segundos antes de eu pisar sobre elas.
Na pressa de chegar logo ao hostel, pergunto a uma mulher na rua se pode nos dizer onde fica o endereço. Diz que não sabe, está há poucos dias na cidade. Continuamos a andar e achamos, dois quarteirões ao lado.
O hostel é bem simples. Na verdade, é um sobrado. Embaixo fica a sala e a cozinha. Em cima os quartos e banheiro. O dono mora no hostel, em alguns cômodos adjacentes, no térreo.
Fizemos reserva antes, mas ele se enganou. Não tinha mais vagas. Com isso, ficamos em um quarto no chalezinho atrás da casa. São mais caros, mas como o erro foi dele, fez pelo mesmo preço. É animal, todo de madeira, com uma cama de casal, móveis também de madeira, uma escadinha e uma cama em um tipo de mezanino.
Na sala do hostel, uma garota passa por nós e vai até a cozinha. Seu rosto parece familiar. Mas de onde? Chapola diz que é a mesma pra quem pedimos informação. Quando ela volta da cozinha, perguntamos.
- Não foi você que paramos agora há pouco na rua para perguntar se sabia onde ficava aqui?
- Ahh, foi sim, lembro dele porque estava sem o gorro.
- Sim, mas você disse que não sabia, e está aqui. Não queria ajudar a gente, é?
- Claro que não, é que na verdade eu não sei o nome da rua, só sei que estou hospedada aqui.
Pensa numa mina alvo de tiração de sarro. Depois de um tempo, já com roupas secas, fomos a um bar onde vende as cervejas artesanais da cidade. São muitos tipos. Começamos com a clara, muito boa! Só pra variar, na sequência pedimos uma de framboesa. Desaprovada por todos. Não que seja ruim, mas é muito doce e enjoativa. A última, escura, foi a melhor pedida. Uma delícia!
Antes de terminar a noite, vamos a um bar/balada tomar a saideira. Andamos poucos quarteirões pela calmaria da noite, ainda úmida da chuva. Na balada, o som é muito bom. Pena que a receptividade parece não ser o forte daqui. Um cara chapado não para de encher o saco, e outro passa, chuta meu pé e fica encarando. Não adianta, em qualquer lugar, sempre tem uma laranja podre pra estragar toda fruteira.
Chegamos em Esquel às 6h30 da manhã, ainda escuro. Bem que podia ter demorado mais, demorei pra conseguir dormir, tô morrendo de sono. É uma longa caminhada até o hostel. A distância parece pequena já que gosto de andar pelas cidades um pouco antes do amanhecer. Tudo tem um aspecto diferente, misterioso, ainda mais quando se está em uma cidade desconhecida.
Essa impresão acaba quando chegamos no Hostel Casa del Pueblo. Uma construção toda de madeira. Camas, mesas, bancos, até o revestimento da geladeira. Um jardim com redes na frente da casa deve fazer a alegria dos mochileiros no verão. Diferente de agora. O tempo agora não é nada agradável. Junta-se à noite mal dormida e o cansaço acumulado, pronto. Um cochilo até o almoço é o que salva.
À tarde, aproveitamos o dia sem gastar. Uma caminhada até um lago no topo das montanhas. O começo é um pouco difícil, a subida é íngreme. Estamos muito rápido e desacostumados. Depois que o corpo esquenta, é só alegria.
Subimos mais um pouco e já é possível ver toda a cidade, encravada em um vale seco e rodeada por montanhas nevadas. Uma paisagem já repetitiva, mas ainda assim, linda.
Lá em cima, um lago grande é o quintal de uma casa isolada. Do outro lado, cavalos negros, marrons e um branco pastam na vegetação amarelada. Um silêncio absurdo toma conta do lugar. Definitivamente, a paz mora aqui! Damos uma volta, esqueço do mundo, do trânsito, da correria, dos prazos. É um lugar para deixar tudo de ruim pra lá, bem longe.
De volta ao hostel, matamos um desejo de um bom tempo. Uma sessão de música ao vivo. Chapolas no violão, eu na meia-lua. O público foi, durante dez minutos, um dos caras que trabalha lá, mais animado que a gente batucando em uma panela e um balde. Fora isso, nada como uma musiquinha pra dormir feliz.
Onde o silêncio fala alto
até o vento canta baixo
em pensamento