Chico Buarque de Holanda
De Yolanda
De Ana, do Amsterdam
O malandro caipira
Carioca de Sampa
Do samba, mineiro
De todo o Brasil.
Francisco, arisco
Em carne, osso e história
Pintura, obra de arte
Pra ouvir, cantar, contemplar.
Quem te viu, não esquece
Aparece, inteiro
Paratodos, a mil.
A música do The National é uma tarde de outono em um parque. Tem uma melancolia aparente, mas a felicidade também está ali, para quem quiser ver.
Essa percepção está em cada acorde, em cada batida, na voz grave de Matt Berninger e nas letras. E, assim como uma patricinha tem seus dias de vagabunda, os National deixam de lado a imagem de bons moços em alguns momentos para dar vazão a uma personalidade grunge.
Vão de “Sorrow’s my body on the waves / Sorrow’s a girl inside my cave / I live in a city sorrow built / It’s in my honey, it’s in my milk” a “I was afraid / I’d eat your brains / Cause I’m an evil” como se trocassem de roupa.
Essa dicotomia é o que nos dá a sensação paradoxal de querer ficar deitado em um dia ensolarado e sair para a rua em uma tempestade quando ouve qualquer um de seus álbuns. Sensação ainda mais perceptível no show. Com um terno todo preto, Matt parecia querer se resguardar atrás de sua aparência sóbria em músicas como Runaway e Daughters of the Soho Riot. Até explodir em uma profusão de gritos alucinantes em Abel ou Mr. November.
Quando os National pareciam ter mostrado todas suas facetas e o show se encaminhava para o fim, eis que surpreendem novamente. Vanderlyle Crybaby Geek é cantada sem microfone, só com um violão e um sax acompanhando. Uma demonstração clara da paixão que têm pelo que fazem. E é essa paixão que funde a melancolia e a felicidade em um sentimento único: emoção.
Já passava das 5 da tarde. O sol, próximo do horizonte, nadava em uma lagoa límpida e sem ondas, e o calor começara a abrandar. Como de costume neste horário, quase com uma pontualidade britânica, uma leve brisa trazia o bucólico aroma de café torrado, lembrando que era a hora do chá. Não fosse o crepúsculo se aproximando e anunciando a chegada da escuridão, o tempo pareceria parar naquele momento.
Enquanto a janela do quarto olhava para o terreno atrás da casa, onde algumas árvores se enfileiravam até o rio, sentado no batente ele via a vida vir e voltar por entre os anos. Já nem sabia mais onde estava.
Quando a música que gritava nos pequenos alto-falantes silenciou, ele se lembrou que os dias tranqüilos como este estavam para acabar. Uma mistura de medo e ansiedade o dominou. Mas logo ouviu gritos vindos da cozinha o chamando, esqueceu todos esses pensamentos incômodos e foi correndo tomar o café fresquinho que acabara de ser feito.
Eis que chego ao último degrau, iluminado pela luz fraca da lâmpada a alguns metros acima. O hall, silencioso, parece uma câmara fria. Tal qual todos os outros dias, neste mesmo horário. De frente para a porta de madeira do apartamento, percebo seus detalhes em relevo, toda frondosa. A porta gêmea ao lado descansa, como que em espera. Uma prateleira, um aparador e uma pequena cadeira acorrentada a um móvel completam a decoração do ambiente.
Já tenho em mãos o molho de chaves. O barulho agudo e intermitente dos metais batendo enquanto brinco com o chaveiro quebra a monotonia e a paz do andar. Assim que o barulho cessa e a única chave cor de cobre é introduzida na fechadura, a porta está pronta para ser aberta. Lentamente, giro a maçaneta em formato de pinha e, enfim, me fecho para o mundo.
Por um tempo, eu esqueci. Foi só o que fiz. Esqueci onde estava. Esqueci das horas. Mal lembrava que dia era. Se estava frio ou calor, pouco importava. Nem me preocupei com a vontade de ir ao banheiro depois de ter tomado algumas cervejas. A dor nas pernas e nas costas deixou de incomodar. Enfim, não conseguia pensar em nada.
Toda minha atenção estava voltada ao palco. Totalmente absorto na estrutura ainda escura, como uma criança de olhos fechados aguardando uma surpresa.
“Can’t live for tomorrow.
Tomorrow’s much too long”
E então, quase sem acreditar, lá estava o Smashing Pumpkins. Pouco importa que toda a banda, aquela dos anos 90, resuma-se a Billy Corgan, o único membro original remanescente. Muito menos que os últimos lançamentos sejam, pra não dizer descartáveis, praticamente irrelevantes perto dos grandes álbuns produzidos por eles.
Tonight Tonight
A questão é que, finalmente, eu estava vendo um dos meus compositores preferidos ao vivo, responsável por criar algumas das músicas que mais mexem comigo.
Para muitos, o show foi aquém do esperado. Muito se falou da fraca “atuação” da banda, dos intermináveis solos de guitarra e bateria, disso ou daquilo. Porém, nem os elogios cegos de fãs pouco criteriosos, nem as críticas surdas de quem se iludiu esperando ver um Smashing Pumpkins com a formação original tocando somente os clássicos me faz esquecer da emoção de cantar várias de suas músicas ao vivo.
Shame
Afinal, o fato de o Smashing não ser mais como antes não anula toda a história e a qualidade da banda.
De qualquer forma, me sinto realizado por ter visto, ouvido e cantado ao vivo Tonight Tonight, Stand Inside Your Love, Today, Ava Adore e, quem diria, até Drown.
“You can never ever leave without leaving a piece of youth
And our lives are forever changed
We will never be the same
The more you change the less you feel”
Não é o Smashing Pumpkins ideal, mas ainda assim é Smashing Pumpkins. Existe água apesar dos sertões.
“So far I still know who you are
But now I wonder who I was…”
Minha impressão é que nasci ouvindo suas músicas. Embora os conheça há poucos anos – não mais que 10 – suas musicas tem o poder de me transportar para tempos remotos e lugares distantes, inimagináveis. Explicar o porquê é uma tarefa árdua. Talvez seja pela emoção sintetizada em cada acorde; pela potência imperial de cada riff; ou pela profundidade de suas letras. O fato é que, para mim, ouvir Smashing Pumpkins é como descobrir novos detalhes, nuances e cores em um ambiente totalmente conhecido. É perceber grandes mudanças naquilo que se imaginava imutável.
Perfect
A evolução no som do Smashing ao longo dos álbuns é tanta que se torna visível. Exceto o vocal nasalado de Billy Corgan, um desavisado poderia dizer que “I Am One”, “To Forgive” e “Eye” pertencem a bandas diferentes.
“We’ll try and ease the pain
But somehow we’ll feel the same
Well, no one knows
Where our secrets go”
A energia inicial, a vontade de fazer música e o dom de conseguir transformar algumas palavras e instrumentos em ondas sonoras repletas de sensações oníricas continuam até hoje, mesmo com a saída de todos os membro da banda.
Try, Try, Try
Se por um lado James Iha e Jimmy Chamberlin não estão mais presentes, espero presenciar o espírito alternativo, inquieto e inovador do Smashing na figura de Billy no Planeta Terra, amanhã.
“No matter where you are
I can still hear you when you dream”
Mesmo no escuro, é possível ver os fios de cabelo de cor púrpura, tal como o céu minutos antes do ocaso.
Tão doce como uma dama-da-noite, o odor do perfume faz brotar as sensações mais íntimas.
A escuridão é quebrada pelo brilho que irradia dos olhos, observadores dos movimentos mais sutis. Assim, pode ver a boca entreaberta a emitir suspiros ofegantes. Aos poucos, o som ritmado adentra o caminho auditivo e preenche cada espaço vazio da cabeça em ecos intermináveis.
O desejo carnal também inunda a alma. Cada poro de seu corpo é um poço infindável de prazer.
Cada contato, cada carícia, cada contração deixa o quarto mais úmido e quente. A boca seca contrasta com a pele molhada de suor.
Ah, quanta energia! O barulho aumenta, os movimentos se aceleram, os pingos de suor se transformam em um pequeno rio salgado, o botão da dama-da-noite se abre totalmente e exala todo o seu perfume.
Escuridão.
A dança sincronizada acaba no mesmo momento em que a cama se transforma em uma piscina.
Exausto, os músculos pedem arrego. Quase desfalece. Quando volta a si, já deitado , o braço esticado não encontra ninguém ao lado.
A cama continua arrumada, intacta. Ao contrário da mente, inquieta, incontrolável.
O coração palpita em uma frequência desconhecida, irregular. Percebe que tudo o que viu, ouviu e sentiu não passara de imaginação. Uma memória ainda viva que o domina e entorpece.
Desenfreado, desce para a rua, traga um gole de cerveja e um cigarro e desbrava a noite desumana que o defraudou.