Mochilão América do Sul – Introdução

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Para ouvir:

The Rolling Stones – Time Waits For No One

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Minha viagem começa muito antes de partir, efetivamente. Sempre tive essa vontade de fazer um mochilão. Uma necessidade cada vez mais eminente. E iminente. Porém, a chance de colocá-la em prática estava sempre distante, vagando por uma cidade-fantasma ou presa em uma fronteira entre dois países distantes. Sempre aparecem desculpas, a maioria esfarrapadas, pra manter o sonho uma ilusão. Grana, emprego novo, aquela velha mania de adiar tudo, querendo ver o pássaro voar sem ter coragem de abrir a gaiola.

No final de 2010, a viagem parecia finalmente tomar forma. Tinha um pouco de grana guardada, o emprego estava ruim. Cheguei a criar um cadastro no site CouchSurfing. E foi tudo. Uma oferta inesperada pra trabalhar em uma agência e a necessidade de ter mais experiência falaram mais alto. O perfil no site ficou jogado às traças. Sem saída, o desejo, reprimido, foi obrigado a hibernar, mesmo no calor infernal de São Paulo.

Até que, em meados de 2011, ele não quis mais saber de esperar e começou a agir por baixo dos panos. Sem saber o porquê, tirei o passaporte. Comecei a pesquisar aos poucos. Perguntava a amigos que já conheciam alguns países. Queria saber de tudo: o que era necessário fazer, ter, comprar, como funcionava para entrar, percorrer, sair. Na época, a ideia era viajar nas férias, que completariam em janeiro. Um mês não era exatamente o que eu queria. Mas calma lá, um passo de cada vez. Só de ir já era mais que o suficiente.

Como planejar e realizar nunca estão na mesma frase quando se trata de minha pessoa (com exceção desta frase), lá se vão minhas férias pro saco de novo. Outra oportunidade de emprego, e lá vou eu. Trabalhar, não viajar.

Enquanto isso, a vontade continuava crescendo. O cansaço de trabalhar por 10 anos apenas com três semanas de férias e uns poucos dias de folga, também. Nessa nova ag~encia, conheci o Rey Calavera, um mexicano que veio pro Brasil de mochilão procurar emprego. A maioria de nossas conversas era sobre viagens. E a vontade só crescia.

Mas como viajar assim? E o trabalho? O apartamento? As contas? Por mais que ficasse um pouco preocupado, essas dúvidas não tiravam meu sono. Viajar nas próximas férias era impensável. Não aguentaria mais nove meses trabalhando no ritmo alucinado em que estava. “Preciso fazer meu mochilão. E tem que ser já”. Era só isso que eu conseguia pensar. O plano era o seguinte: no carnaval, ia acampar na praia do sono. Lá, teria o tempo e o clima perfeitos para decidir de uma vez por todas. Não deu outra: voltei do carnaval e, na semana seguinte, pedi demissão. Agora sim! Um mês de aviso-prévio me separam da estrada. Difícil acreditar.

A dúvida sobre qual seria o destino não durou muito tempo. As opções: Canadá, onde um casal de amigos está morando. O leste europeu. Países nórdicos (Noruega, Finlândia, Suécia, Islândia). Europa turística (Itália, França, Inglaterra). E América do Sul. Ganhou o óbvio. Muito mais barato, mais selvagem e com países e lugares tão diferentes entre si. América do Sul, aí vou eu!

Tudo definido, hora de começar a me agilizar. Renovação da carteirinha de alberguista, pedir outro cartão de crédito internacional e consultar minha médica homeopática. Não passou disso. Provavelmente na viagem pra Praia do Sono ou pra Santos, peguei um olho de peixe. Com o remédio homeopático, nada de sarar logo, como de praxe. Não é possível tanto azar assim. Sem poder andar, passei a última semana de trabalho em casa.

Chega dia 30 de março. A passagem pra Porto Alegre marcada pra 13 de abril. Duas semanas pra ficar bem. Corrida contra o tempo, nada animador. Contra minha vontade e ideologia, tive que tomar a vacina contra a febre amarela. Foi uma decisão difícil. Por vários dias, havia decidido não tomar. Falei com minha médica e, sem opção, tomei. Fazia pelo menos 25 anos que eu não tomava vacina. Infelizmente, a homeopatia não é levada a sério. Correr o risco de não entrar na Bolívia por causa de uma merda dessas não está nos planos. Uma picada no braço e problema resolvido.

Enquanto isso, o olho de peixe continuava atrapalhando a realização da viagem. Só restava passar uma semana em Socorro torcendo pro pé ficar bom. E ficou! Alguns dias antes de viajar, finalmente conseguia andar sem mancar. Nem precisei vender os ingressos do Lollapalooza e do Roger Waters, pra deixar o Brasil com as melhores lembranças possíveis!

Chega a última semana. Com ela, uma correria insana. Ainda tinha que renovar a CNH antes de viajar, ir ao banco liberar os cartões, comprar os remédios homeopáticos e itens de higiene e cuidados pessoais, passar uns dias com a Leila em Santos. Dois dias antes de viajar, na quarta, de volta a São Paulo, tinha que correr em Mogi das Cruzes pegar minha nova credencial de mergulho, já que a antiga estava vencida. Mesmo com o temporal no final da tarde, deu tempo de tomar umas com os amigos em uma pequena despedida.

Na quinta, uma passada na Decathlon comprar calça impermeável, segunda pele, mochila de ataque, porta-dólar e bag pra guardar o HD portátil. Na Confidence Cambio, meu Visa Travel Money, pra sacar grana sem pagar tanta taxa. E a mochila e uma bolsa impermeável pra guardar tudo o que não pode molhar, em caso de chuva muito forte, como a câmera e o carregador. Uma cervejinha de despedida na casa do Lê, meu irmão, com os mais chegados. Resultado: mochila pronta às 3 da manhã. Tinha tudo pra dar errado. Deu certo! Tentar dormir três horinhas e partir pra Porto Alegre, ponto de partida de uma viagem que eu não sei onde e quando vai acabar. Mas o mais importante eu já sei: começou!

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~ por rocisman em 15/10/2012.

7 Respostas to “Mochilão América do Sul – Introdução”

  1. Porra, se tivessemos conversado melhor te emprestava minhas segundas peles.
    Irado Ro, não sabia que a decisão foi naquele carnaval

  2. texto muito legal to louca pra ler os próximos!!!

  3. Cara, seus textos vão ajudar bastante no planejamento de viagem de muita gente!!! Aguardando os próximos!

  4. Show de bola Rodrigão!

  5. Valeu galera! Espero que a leitura dos textos seja tão prazerosa pra vocês quanto é pra mim passar tudo a limpo e postar. O começo da viagem é um pouco tranquilo, mas a partir do quarto dia de viagem, fica animado, com fotos pra caramba! E as atualizações são diárias. Vocês podem cadastrar o e-mail ali no menu do lado direito, em cima, pra receber as atualizações! 😉

  6. Hahaha eu lembro disso. Falou e fez mesmo!

  7. Não tinha como não fazer, né Fê! Tava difícil a vida. rs

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