Mochilão América do Sul – Dia 26

Dia 26 – 08/05/12 – 3ª-feira

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Para ouvir:

Almir Sater – Tocando em Frente

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Acordo mais tarde que o planejado. A despedida ontem foi até tarde. O bom da Argentina é que o vinho é bom e barato. O ruim da Argentina é que o vinho é bom e barato. Pelamor, haja vinho.

Como o hostel está vazio, Sophie e eu tomamos o café fora do horário permitido. Arrumamos a mochila e pé na estrada. Literalmente! A ideia é pedir carona até Ushuaia, ou até onde conseguirmos. O dia está lindo, solzão brilhando no céu azul.

Pegamos um ônibus circular até a saída da cidade. Vamos caminhando pela estrada, temos que chegar à Ruta 3. Pergunto a um tiozinho que cruza por nós, diz que são dois quilômetros até lá. Não é fácil andar com essa mochila. Mais difícil ainda é conseguir uma carona. Ninguém para. Vai ser mais difícil do que eu pensava. O jeito é continuar andando. A vista da cidade, do mar e do deserto lá atrás traz ânimo pra caminhada.

Depois de uma bela subida, chegamos a um posto policial. Pergunto se falta muito. Dois quilômetros. Puta merda, o tiozinho me enganou. Faltavam dois quilômetros pro posto policial. Agora, mais dois. E nada de alguém parar. Pra dar uma relaxada, falo pra Sophie que vamos ter sorte com um carro vermelho. Dito e feito. A primeira carona dura cinco minutos, até o posto de gasolina na Ruta 3. Dois caras que trabalham na fábrica ao lado do posto. Em um carro vermelho. Maravilha!

Agora temos que “hacer dedo” de verdade. Paramos na beira da estrada. Converso com alguns caminhoneiros que estão estacionados enquanto Sophie fica com o dedão levantado, ao lado das mochilas. Não consigo nada, volto pra beirada.

Deveríamos ter acordado cedo, já são três da tarde. Se continuar assim, vamos ter que voltar pro hostel e tentar de novo amanhã. Passam poucos carros e caminhões, nada muito animador.

Percebo que não estamos no melhor lugar. Quem vem de Puerto Madryn, faz o balão e vira para a esquerda não tem como dar carona pra gente. Estamos mais à direita. Pegamos as mochilas e vamos pra lá. Agora sim, temos chances de pegar carona com quem vem pela Ruta 3 e com quem sai da cidade. Alguns minutos mais e bingo! Uma saveiro branca e velha encosta. Corro falar com o motorista. Um tiozinho que vai para Trelew, a próxima cidade a uns 70 km. Não é o que queremos, mas já é um avanço. Vamos nessa! Coloco as mochilas na caçamba e nos apertamos no banco da frente. Nem acredito! A segunda carona, a primeira na Ruta. Vou conversando com o tiozinho, muito gente boa. Uma hora de estrada, chegamos em Trelew. Ele desvia seu caminho pra nos deixar no posto de gasolina na saída do outro lado da cidade. Agradeço entusiasmado. Foi só o começo, ainda falta muito. Que a sorte continue ao nosso lado! E nada melhor pra dar sorte que uma cerveja. Corro na loja de conveniência, compro duas Quilmes e volto correndo. Abrimos as latas, brindamos, tomamos um gole. Lá vem um caminhão. Levanto o dedo pro primeiro de muitos. Opa! O primeiro e único. Ele parou. Não é possível, esse foi fácil. Subimos. Sento na cama do motorista, entre os dois bancos. O motorista não é de muitas palavras. Quando fala, é um grunhido em espanhol. Diz que vai até Rio Gallegos, a última cidade antes da Tierra del Fuego, mas só chega amanhã. Vai parar em alguma cidade depois de Comodoro Rivadavia pra dormir.

Na carroceria, carrega suprimentos prum supermercado. Na cabine, foto do filho ao lado do caminhão e bandeirinhas de vários países da América do Sul. Pergunto por que não tem a do Brasil. Alguém roubou! No chão, uma caixa com comida, mate, cigarros, um bujão de gás, garrafa térmica. Um laptop pra assistir DVD vai em cima do console. Quando subimos, já estava assistindo um filme. Assim que acaba, coloca outro. É da Venezuela, chama La Hora Zero, sobre uns bandidos que fazem funcionários e pacientes de um hospital de reféns, até conseguirem que uma amiga grávida e baleada possa dar à luz. Vamos assistindo em espanhol com legenda em inglês, pra que Sophie entenda também. O filme tem muitas cenas de violência. Darío solta umas risadas um pouco assustadoras quando alguém leva um tiro ou morre, o que deixa Sophie assustada.

Lá fora, a paisagem desértica passa devagar, impossível saber a quantos quilômetros por hora. O velocímetro está quebrado. Estrada sem muitas curvas, velocidade lenta, noite chegando, o sono começa a bater. Pergunto a ele se não tem vontade de dormir nessas viagens. A resposta de Darío é um misto de rugido e bocejo sem abrir a boca.

– Desculpa, não entendi.

Outra resposta e penso que tem um motor no lugar das cordas vocais. Pergunto de novo.

– O quê?
– Coca!

Ah, entendi. Respondo automaticamente, meio assustado. Folha de coca não deve ser, não vi em lugar nenhum no caminhão. Por um momento, penso se estamos correndo perigo. Talvez por isso ele mal falava e só fitava a Sophie com os olhos meio arregalados quando subimos. O medo dá lugar a uma certa dó. Difícil julgar uma pessoa nessa situação. A moral, a ética, a lei e os conceitos de certo e errado têm uma conotação muito particular aqui. A coca, pra ele, é um meio de sobrevivência, tal qual comer e dormir. Dirigir o caminhão por longas distâncias em tempo recorde é o único meio de sustentar sua família. Não pode ter o privilégio de dormir. E a coca é o que o mantém desperto. Não é bom, mas não faz por mal. É uma longa discussão, que não cabe aqui.

Já escuro e o frio aumentando, ele pede o fogareiro. Esquenta a água, mate pra dentro! Começamos a descer uma serra antes de Comodoro Rivadavia. Uma hora pra fazer 30 quilômetros. O caminhão não pode embalar por causa do peso. Haja paciência, não chega nunca.

Como Darío vai dormir no caminhão, descemos em Comodoro. Ofereço alguns pesos como forma de agradecimento, pra ele tomar um café. Não aceita, eu insisto. Finge que fica bravo e diz pra eu ir embora logo.

Andamos até a rodoviária, já de noite. Compramos passagem pra Rio Gallegos. Saímos às 22h30. O primeiro dia de carona acabou. Já com relação ao cansaço, não posso dizer o mesmo.

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~ por rocisman em 13/12/2012.

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