Mochilão América do Sul – Dia 28

Dia 28 – 10/05/12 – 5ª-feira

—————

Para ouvir:

The Beatles – Helter Skelter

—————

Depois dessa noite, o saco de dormir está aprovado. O chão do Centro de Informações Bahía Lomas, não. Levanto com dor nas costas. Arrumo toda a bagunça a tempo da mulher abrir. A primeira balsa já passou. Tomamos um café na garrafa PET e comemos umas bolachas que sobraram de ontem. Esperamos a próxima leva de carros. E outra, e mais outra. Além do frio, está chovendo. Uma garoa fina, chata. Três balsas já passaram. Pelo visto, o dia vai ser longo. Sophie está quase chorando, diz que não vamos conseguir nada. Cogito a ideia de dormir aqui de novo. Se bem que ainda é cedo, 11 da manhã. O problema, que me deixa preocupado, é que não temos nada pra comer.

Bahía Lomas, casa por um dia

Centro de Informação Bahía Lomas.

Um cara entra no centro, diz que vai passar um ônibus logo mais, provavelmente na próxima balsa. Ela chega. Nenhuma carona. Um caminhão para, vou até lá falar com o motorista. Olho de um lado, do outro, não o acho. Um ônibus desce da balsa. Dane-se tentar a carona, melhor ir pelo certo. Faço o sinal pro busão parar. Ele continua andando. Puta merda, por que não parou? Duvido que esteja cheio, deve ser má vontade do motorista. Agora, ou conseguimos carona, ou teremos que dormir aqui de novo. Volto pro caminhão, ainda estacionado. O motorista está quase partindo. É o último dessa balsa. Faço sinal pra ele. Explico que precisamos ir até a próxima cidade, não temos o que comer nem onde dormir. Ele se compadece e fala pra subir. Alívio, que sensação boa! Já estava perdendo as esperanças de sair daqui hoje. Nada assim muito ruim, a não ser pela falta de comida, mas isso dava-se um jeito. Lá vamos nós pela Terra do Fogo em um caminhão carregado com uma casa pré-fabricada. Estamos perto de Rio Grande, uns 230 km.

O motorista é engraçado. Praticamente um moleque, com 23 anos. Trabalha desde os 18 como caminhoneiro. Vive na periferia de Buenos Aires. Diz que a fronteira para entrar novamente na Argentina, lá na frente, fecha às 22h, e talvez ele só possa atravessar amanhã. Não consigo entender o motivo. E por mais que demore, ainda está cedo, o caminhão segue em uma velocidade boa.

Vamos ouvindo música e conversando. Até que o asfalto chega ao fim. A estrada de terra é boa, mesmo com a chuva fina e algumas poças d’água no caminho. Mas o caminhão é muito grande e pesado. Não passamos de 30 km/h. Finalmente entendo porque ele disse que poderíamos demorar quatro, cinco, seis horas pra chegar à fronteira. Ao menos estamos indo. A paisagem não muda, é sempre a mesma desde Puerto Madryn: deserto, sem árvores, com uma vegetação rasteira amarelada até onde a vista alcança. Guanacos e lebres por todo o caminho são nossas atrações e diversão dos caminhoneiros. Quando passam por alguns animais na beira da estrada, buzinam como se não houvesse amanhã, e os animais saem em disparada.

Até agora, em toda conversa com os argentinos, três assuntos sempre estão em pauta: futebol, política e Michel Teló. Todos aqui ouvem, todos sabem cantar, ninguém tem noção nenhuma do que a letra diz. O motorista coloca a música Ai Se Eu Te Pego e pede pra eu traduzir. Obrigado, Michel Teló, por me proporcionar esse momento tão divertido.

Perguntamos se podemos jogar o lixo em um saquinho que está ao lado do câmbio, no chão do caminhão. Ele diz pra jogar pela janela. Educado, digo que vou jogar ali mesmo, melhor. Ele abre a sua janela, pega o saquinho e atira pela janela, dando uma gargalhada enérgica.

– Pode jogar, aqui é o Chile, foda-se!

Eu me divirto enquanto Sophie se desespera, sem entender nada. Descubro que Chile e Argentina não se dão bem. Aqui no sul a inimizade é ainda maior por causa da Guerra das Malvinas, quando o Chile apoiou a Inglaterra, e pela disputa de terras na Patagônia.

Estrada na Patagônia Chilena

Estrada de Bahía Lomas a Rio Grande, na Patagônia Chilena.

Cento e cinquenta quilômetros de estrada de terra e cinco horas depois, chegamos à fronteira. Paramos em um hotel-restaurante alguns metros antes para comer um lanche e tomar um café. Aproveitamos pra perguntar quanto custa uma noite. Trezentos pesos argentinos, ou 150 reais. Caro, comentamos entre nós. A dona do estabelecimento se mete na nossa conversa.

– Não precisam pagar pra dormir aqui.
– Como não?
– Podem dormir aí fora, armem uma barraca e pronto.
– Seria uma boa, mas com esse frio, não dá.
– Ué, se querem dormir bem, sem passar frio, com chuveiro quente, conforto, é só pagar. Se não quer gastar, não viaje.

Não adianta, gente emburrada e mal-educada tem em todo lugar. Não posso nem responder à altura porque se der zica teremos que dormir aqui. Peço a conta, Sophie e eu concordamos em pagar a parte do nosso amigo. Sem pestanejar, ele diz que não, e acaba dando um pouco mais de dinheiro do que realmente teria que pagar.

Saímos na porta. O plano é o seguinte: ele vai tentar cruzar a fronteira agora. Sophie e eu esperamos aqui. Se não conseguir, volta pra cá, dormimos e continuamos a viagem amanhã. Mas se em 15 minutos ele não voltar, vamos até lá, cruzamos e o encontramos do lado de lá. O tempo custa a passar. O caminhão não vem. Quinze minutos. Vamos! Embaixo de chuva, pisando em barro e desviando de poças contra o vento.

A fronteira não é nada mais que um portal no meio da estrada de terra, com uma sala comprida onde ficam os balcões com oficiais.

Gozado, não tem nenhum caminhão estacionado desse lado. Há uns três ou quatro voltando. Será que ele não foi autorizado a cruzar e teve que fazer a volta? Segundo Sophie, não. Diz que ele foi embora. Nenhum dos caminhões é o dele. Filho da puta, foi embora e deixou a gente aqui. De novo, no meio do nada. Agora, chovendo e já escuro. Dormir na pousadinha da velha chata é a última opção. O pior é que não podemos carimbar o passaporte e atravessar pra agilizar caso alguém nos dê uma carona, porque se não conseguirmos, temos que voltar pra dormir. E sem carimbar, fica mais difícil, já que demora um tempinho pra passar por todos os balcões. Já que estamos aqui, só nos resta continuar pedindo carona até a fronteira fechar.

Ficamos na calçada, do lado de fora da porta de entrada do salão. Falo com todos os caminhoneiros que passam por nós. E todos têm que passar. Nenhum se dispõe a ajudar.

Três caminhões param. Falo com o primeiro. Não pode porque tem mais gente com ele no caminhão. O segundo diz que não porque só há espaço pra mais uma pessoa. O último é um gordinho, parece ser gente boa. Ele entra. Depois de alguns minutos, volta. Começo a abordagem.

– Boa noite. Olha só, minha amiga e eu estamos aqui sem ter como sair. Não temos comida nem onde dormir. Só queremos ir até a próxima fronteira, sei que são uns 14 km somente, podemos ir com você, por favor?

Ele faz todos os gestos e expressões de quem vai dizer sim. Já estava quase pegando a mochila. Olha pra Sophie e pra mim dos pés à cabeça, lentamente.

– Não. – e sai andando até o caminhão.

Puta que pariu, gordinho safado, filho da puta. Tudo bem, ele tem o direito de recusar, e não faz bem ter esses pensamentos negativos aqui. Mas precisa nos medir assim?

Bom, vamo que vamo. Para uma caminhoneta vermelha, velha, um pouco judiada. Dela saem um tiozinho de cabelo comprido, rabo de cavalo, já branco, assim como a barba, e um moleque. Repito toda a história: frio, sem comida, nem lugar pra dormir, só queremos ir até a próxima fronteira (um oficial nos explicou que esta fronteira é para sair do Chile. Mais à frente há outra, para entrar na Argentina. Burocracia pouca é bobagem), porque lá é mais barato para dormir e blá blá blá. É um baita clichê, mas sabe aquela história de que as aparências enganam, coisa e tal? Um tiozinho largado, sofrido, com uma expressão que grita: “estou cansado, quero chegar logo em casa, não me encha o saco”.

– Sim, tudo bem.

Mais uma vez, alegria, alívio, gratidão. Minha vontade é de abraçá-lo, dar um beijo em sua testa, pular e fazer um hi five, sair cantando e dançando como se estivesse em um musical.

Postura ereta, mochila nas costas, entramos na aduana carimbar o passaporte. Ele espera lá fora. Saímos, colocamos as mochilas na caçamba ao lado de várias outras. Pelo que parece, ele não se preocupa com a estrada de terra, à noite, a chuva e o para-brisas meia-boca. Pé no acelerador. Assim como não há nada tão ruim que não possa piorar, o que é bom também sempre pode melhorar. The Beatles no player. A conversa flui. Explico quem somos, de onde viemos, como fomos parar ali pedindo carona. Eles estão vindo de Córdoba e vão até Rio Grande. Três dias de viagem.

Lautaro, o moleque de 21 anos, liga e desliga o para-brisa, quando acha necessário. Não é o suficiente. Um caminhão vem no sentido contrário com o farol alto, cegando a todos. Humberto, o tiozinho motorista, freia e tenta dar uma encostada. O carro derrapa, balança pra lá e pra cá, dá um solavanco de lado no barranco e para. Todos estão bem. Lautaro e eu abrimos as portas, ele na frente, eu atrás. O carro também está inteiro. Vamos até a próxima fronteira, agora mais devagar. Damos entrada na Argentina. Humberto vê que a roda de trás estourou. Com uma chave de roda emprestada por um oficial da alfândega, trocamos o pneu. Falta pouco pra chegar. E agora a estrada volta a ser asfaltada. A briga entre os dois países na Tierra del Fuego é pior do que parece. O Chile mantém a estrada de terra em seu território para atrapalhar a vida dos argentinos. Querem todo o território pra eles. Enquanto não conseguem, fazem birra assim.

Aqui, a fronteira funciona das 9h às 23h. Fora desse horário, ninguém passa. Os argentinos fueguinos não têm livre acesso ao resto do seu país. Não me parece muito justo.

Rio Grande. Quem diria, chegamos! Procuro o endereço do único hostel mencionado no guia. Paramos em frente, tocamos a campainha. Fechado! Cansado, falo que pode nos deixar em qualquer hotel, barato ou caro, que conheçam. Humberto diz que sabe onde há outro albergue. Lautaro interrompe.

– Podem dormir em minha casa, se quiserem.
– Como assim, cara? Já está de noite, você pegou a gente na fronteira, não nos conhece e chama pra dormir na sua casa?
– Ah, tranquilo, não tem problema. Meu pai vive só, vai gostar de ter companhia.
– Então beleza. Fechado!

Seguimos caminho. Na avenida, tudo parado por causa da chuva. Um terreno baldio, mais parecido com uma pista de rally, se estende ao nosso lado. Humberto não hesita. Sobe o meio-fio e vai pela terra. Com ou sem emoção?

Enfim, chegamos à casa de Lautaro. Prédio, na verdade. Um conjunto popular, simples. Somos recebidos por seu pai como se fôssemos velhos conhecidos. Passamos boas horas conversando e ouvindo música. César mostra com empolgação os artistas argentinos, uruguaios, chilenos que mais gosta. Todos antigos, folclóricos, clássicos. Deveria ir dormir cedo, o cansaço é grande, mas é impossível. Estou fazendo o que mais gosto: conversando e ouvindo música. Sophie vai pro quarto, não consegue acompanhar a conversa. Fica deitada lendo o dicionário com os olhos cheios de lágrima. Diz que na Suíça não existem pessoas assim, que abrem sua casa para estranhos.

Na TV, começa a passar um documentário sobre Ray Charles. Animal! Tarde da noite, vou dormir completamente feliz e realizado. Finalmente em uma cama. Como se não bastasse tudo o que fizeram por nós, Lautaro vai dormir com o pai para que possamos dormir em seu quarto.

Amanhã, finalmente, Ushuaia!

Acompanhe a viagem pelo mapa:

Anúncios

~ por rocisman em 20/12/2012.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: