Mochilão América do Sul – Dia 35

Dia 35 – 17/05/12 – 5ª-feira

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Para ouvir:

Novos Baianos – Mistério do Planeta

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Chegamos ao Parque Nacional Tierra del Fuego às 11h. Relativamente cedo, já que nessa época do ano, o sol nasce às 9h. São 12 quilômetro da cidade. De novo, não precisamos pagar pra entrar porque é baixa temporada. Dizem que na alta custa 100 pesos (ou R$ 50,00).

Começamos a caminhar, todos vão pro mesmo lado. Aos poucos ficamos pra trás, nosso ritmo é mais devagar, paramos pra tirar fotos, ver tudo com calma.

A paisagem é absurdamente linda! Montanhas nevadas ao longe, espelhadas em um lago azul. Cenário de quebra-cabeça.

Entramos em uma trilha, bem tranquila, sem nenhum nível de dificuldade. Passamos por dentro de bosques com árvores secas, pequenas praias com água esverdeada e pedras em lugar de areia, campos com vegetação rasteira, castigada pelo frio. Vento seco e gelado, praticamente sem umidade e sol fraco. É o quase inverno da Patagônia. Nossa sobrevivência fica por conta da petaca com conhaque. Que frio, que nada!

Em uma praia, um falcão sem-vergonha pousa em uma pedra a poucos metros e desfila para a câmera. De perto, no chão, mostra toda sua imponência.

Mais pra frente, chegamos em um bosque com árvores grandes, antigas. Um barulho chama a atenção. Tem gente derrubando árvore em um parque nacional? Sons fortes de machadadas ecoam no ar. Não é possível, tem coisa errada. Diminuímos o passo e aguçamos o ouvido. Não vemos ninguém. O barulho vem de vários lugares. Opa, algo se mexeu ali. É um pica-pau de cabeça vermelha. Sem trocadilhos. Um não, vários! Vemos dois no chão, nada incomodados com nossa presença. Que animal! Ficamos por um bom tempo fotografando, filmando, satisfeitos pela bela surpresa.

Saímos do bosque pra uma área aberta. Um rio corta a planície, sem pressa. Outro falcão aparece em nossa frente e pousa no parapeito da ponte. Mais bonito e muito melhor pra fotografar. Tá fácil assim!

O sol, que não fica a pino nessa região e época do ano, já começa a enfraquecer. O vento aumenta. Enfim, chegamos ao fim do fim. Onde acaba a Ruta 3, o ponto mais ao sul de Ushuaia. Um mapa mostra nossa localização e uma placa, a distância: Alaska a 17.848 km e Buenos Aires a 3.079 km.

Hora de voltar ao ponto de encontro. Temos que ir rápido, falta pouco tempo pro horário combinado. Uma dica valiosa: nunca vá pra nenhum passeio ou pegue ônibus/trem para outra cidade sem ter comida. Andamos das 11h às 17h só com água pra matar a sede e conhaque pra passar o frio. No restaurante do parque, como um alfajor enquanto esperamos a van chegar. É o que vai enganar o estômago até fazer comida no hostel.

A intenção de dormir cedo fracassa. Um norte-americano barbudo e sujo chega no albergue. Veio de bicicleta desde o Alaska. Conhece tudo sobre a América. A conversa é uma aula de política. Conta sua história, toda a viagem. Dois anos pra chegar até aqui. Diz que não precisa de muito dinheiro quando se viaja de bike. Por exemplo, ficou três meses na Colômbia e gastou só 100 dólares. É o tipo de pessoa que me faz sentir bem e mal ao mesmo tempo. Bem porque sei que ainda existe gente politizada (no bom sentido, não aqueles estudantes metidos a intelectuais que colocam a culpa de todos problemas do mundo no capitalismo), inteligente, desapegada. E mal porque sua história me faz sentir um merda, toda aventura que penso estar passando é um passeio no parque em uma manhã ensolarada de domingo.
Pessoas como ele realmente dão valor às pequenas coisas da vida. Não reclamam por qualquer besteira. Se o arroz está com um pouco mais de sal do que deveria, tudo bem. A TV pifou no meio de um jogo, não faz mal. O pneu da bike furou quando estava subindo uma ladeira íngreme, é só trocar. E isso não é um jeito Poliana de ser, um positivismo forçado. A questão é que já passou tanto perrengue, situações realmente desanimadoras e desafiadoras, que um feijão sem tempero é um banquete, se não pega a TV vai fazer outra coisa, como ler um livro. Enquanto muita gente reclama que começou a chover, mesmo estando em casa ou dentro do carro, pessoas como ele ficam feliz pelo refresco das gotas de água enquanto pedalam. Para ele, a real felicidade não está no comprar, ou no ter. Está no viver, no conhecer, no experimentar. E pessoas como ele sabem disso não porque pensam assim. Eles vivem assim.

Mais fotos do Parque Nacional no Flickr.

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~ por rocisman em 14/01/2013.

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