Mochilão América do Sul – Dia 36

Dia 36 – 18/05/12 – 6ª-feira

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Para ouvir:

Lynyrd Skynyrd – Simple Man

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Depois de uma semana só curtindo, bebendo uma cervejinha e dormindo numa cama confortável, é hora de ir rumo ao desconhecido mais uma vez.

Mochila nas costas, Chapolas e eu vamos pra saída da cidade. Disseram que eram apenas 20 minutos caminhando. Acho que se enganaram. E nos enganaram. Já estamos andando a um bom tempo. Ainda dentro da cidade, tentamos pedir carona. E conseguimos. Uma caminhonete branca, velha, com dois caras, para nos levar. Estão indo trabalhar, podem nos deixar no portal da cidade. Ótimo!

Portal

Como de praxe por aqui, passamos pelo controle policial e, aí sim, pedir carona de verdade. Não demora muito, um tiozinho também em um carro um pouco velho, encosta. Diz que está indo para Tolhuin, um povoado no meio do caminho até Rio Grande. A Tierra del Fuego argentina só tem três cidades. A primeira, pra quem chega à ilha, é Rio Grande. Uns 100 km depois, Tolhuin, com 1500 habitantes aproximadamente e, lá no fim, a cidade mais ao sul do mundo, Ushuaia.

Pé na estrada de novo

Mais uma vez, a conversa gira em torno de política e economia. Não podia ser diferente. Roque foi ministro da economia e do governo da Tierra del Fuego. Outra aula, descontando sua parcialidade.

Quando não fala de política, sua diversão é tirar sarro dos chilenos.

– Os “chilitos” (termo pejorativo) falam que nós, argentinos, só comemos carne e não temos batata. Eles têm mais de 80 tipos de batata e ficam felizes com isso. Muito melhor comer muita carne que só comer batata. É tanta que quando vão atravessar a fronteira, não precisam de passaporte. Tiram uma batata do bolso e pronto, já sabem que são chilenos.

Roque fala com uma acidez revestida de raiva dos chilenos. É um pouco pesado, principalmente pros defensores do politicamente correto, mas não deixa de ser engraçado. O território estreito do país vizinho também é motivo de chacota.

– Quando há alguém que não para de rir, gargalha de qualquer coisa, como um bobo, dizemos que está tão feliz quanto um “chilito” desenhando o mapa do Chile. Rouba um pouquinho de terra aqui, pega mais um pouquinho ali.

Ainda rindo, descemos do carro na entrada de Tolhuin. O frio, claro, é constante. Uns tragos na petaca e tudo fica melhor.

Pensamos que se tudo der errado e não conseguirmos carona aqui, entramos na cidade e vamos de van até Rio Grande. Ou, na pior das hipóteses, podemos achar um lugar barato pra dormir. Que nada! A solicitude dos argentinos prevalece mais uma vez. Agora, um cara que mora aqui e precisa ir até Rio Grande arrumar dois radiadores do carro, que estragaram com o frio. Nem preciso dizer o estado do carro. Também não tem velocímetro, e ele precisa chegar lá em uma hora. Com emoção, por favor!

Cláudio é mais um que tem uma vida sofrida por aqui. A crise na Argentina realmente foi feia. Muitos não conseguiram se recuperar até hoje. Ele diz que mudou de Bahía Blanca pra cá por causa de sua mulher, que nasceu em um povoado muito pequeno e não gosta de cidade grande. Tem quatro filhos e uma casa com dois quartos. Dorme com sua mulher em um colchão na sala, mesmo com este frio, para que sua filha possa dormir sozinha em um quarto.

– É a única menina, precisa de privacidade, né?

Em um ponto, os argentinos são muito parecidos com os brasileiros. Mesmo na merda, fazem piada, têm um sorriso fácil e um olhar profundo de esperança, de que tudo vai dar certo.
Entre as histórias, uma se destaca por seu conteúdo tragicômico. Diz que fez uma viagem parecida com a nossa, guardada as devidas proporções, já que tinha mulher e um filho.

– Peguei minha esposa e a criança, ainda novinha, e falei que íamos fazer uma viagem tranquila, sem pressa, desde Bahía Blanca até aqui, no sul. A gente vai descendo, numa boa, para pra descansar embaixo de uma árvore quando quiser, estende uma toalha, faz um “asado”, pra curtir mesmo. ‘Che’, nunca dirigi tanto. Olha aí, não tem uma puta de uma árvore em todo o cainho, vim direto até aqui.

Depois que conseguimos parar de rir, comento que passei por Bahía Blanca, onde fiquei na casa de uma família incrível lá.

– Ah, é uma cidade muito boa, cresceu rápido.

– Sim, foi o que me falaram. É um polo petroquímico muito grande. O pai da família que me hospedou trabalha em uma empresa dessas lá. Seu sobrenome é Estanga.

– Estanga?

– Isso, Norberto Estanga.

– “Che”, eu conheci um Estanga, era meu amigo de infância, brincávamos juntos em Fortín Mercedes.

– Eita, ele me falou desse lugar. É um cara alto, encorpado.

– Faz muito tempo que não o vejo nem tenho notícias dele, 15 ou 20 anos.

– Eu tenho o contato dele, e talvez passe por lá de novo quando for para Buenos Aires.

– Anota meu telefone e dê pra ele, peça pra me ligar, por favor.

Vou ser repetitivo, mas tenho que falar de novo. Essa é a diferença entre viajar por terra de mochilão, pedindo carona, e de avião. Dos dois jeitos, é possível conhecer os pontos turísticos. Mas só de mochilão você conhece o povo local, interage com ele. O turista convencional só vê o belo. O mochileiro conhece o bonito e o frio, o bem e o mal. O primeiro tipo de viagem é mais superficial. O segundo é visceral. Aquele vê a história passar. Este faz a história acontecer.

Descemos do carro uns 5 km antes da cidade. A oficina é aqui. Vamos andando pela beira da pista enquanto Cláudio resolve seus problemas. Uma bela caminhada entre ventos do deserto e de caminhões velozes. Passado um bom tempo andando, Cláudio nos alcança. Agora sim, telefone anotado e despedida pra valer. Descemos na rodoviária. Ônibus pra Rio Gallegos só amanhã de manhã.

Tentamos ligar para Lautaro, o moleque que me deu carona e dormi em sua casa quando estava indo pra Ushuaia. Não atende. Também não responde a mensagem que mandei por Facebook ontem. A saída é ir até lá andando. Ninguém em casa. Cadê aquela sorte amiga que estava pegando carona com a gente? Um vizinho sai na janela e diz que ele não está, deve ter saído com o pai. Pedimos pra deixar um aviso que de que passei por aqui e volto mais tarde.

Ficamos uma hora e meia sentados na loja de conveniência de um posto de gasolina, esperando o tempo passar. Vamos de novo. Não é uma boa hora pra chegar à casa de alguém assim, de sopetão, mas não temos outra alternativa.

De fora, dá pra ver a luz da sala acessa. Subimos as escadas, toco a campainha e Lautaro abre.

– Hey, como está? Você disse que eu podia voltar, aqui tô eu. Com um amigo do Brasil.
Outra vez, hospitalidade difícil de descrever. Depois de jantar, ficamos na mesa da cozinha conversando sobre música e política. Quantos artistas bons na Argentina, Chile, Uruguai! Todos devidamente anotados. Uma trilha sonora pra fechar a noite com chave de ouro, regada a vinho, tequila, uma vodca russa de rótulo vermelho com o símbolo do comunismo e charuto Havanna, o mesmo que Che Guevara fumava, como no quadro com sua foto pendurado na parece ao nosso lado. A empolgação é tanta que decidimos ficar aqui amanhã. Descansamos, preparamos tudo e depois de amanhã, partimos. Mesmo porque não vai ser fácil acordar às 6h30 da madrugada depois de só duas horas de sono.

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~ por rocisman em 16/01/2013.

Uma resposta to “Mochilão América do Sul – Dia 36”

  1. […] À tarde, Norberto chega do trabalho e conto toda a história da carona com César (para sair de Ushuaia), um dos motivos por que voltei. (para saber qual é a história, leia sobre o dia 36 aqui). […]

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