Mochilão América do Sul – Dia 46

Dia 46 – 28/05/12 – 2ª-feira

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Para ouvir:

Neil Young – Old Man

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Descemos em Comodoro às seis e pouco da manhã. Na Patagônia, as viagens entre cidades são feitas, na maioria, sempre à noite. Melhor pra não perder um dia inteiro dentro de um ônibus. Vamos até a loja de conveniência de um posto de gasolina, mais pra passar o tempo e menos pelo café.

Tentamos pedir carona na avenida que vai até a saída da cidade. Difícil, ainda estamos no centro. Muitos carros passam, provavelmente poucos vão até a estrada. Um tiozinho, do outro lado da avenida, grita que há um posto de gasolina mais pra frente, melhor pra pegar carona. Uma caminhonete para. Converso com o motorista. Não serve, infelizmente. Outro tiozinho vem falar pra gente que pegar carona aqui é difícil. O melhor é pegar um ônibus circular até a saída da cidade, onde tem um controle policial. Lá vamos nós.

Como ditam os manuais do bom caronista, pedimos permissão aos guardas antes de parar na beira da estrada.
– Claro, sem problemas. Fiquem ali que é mais fácil pra estacionarem.

Valeu, champs! É o comecinho da estrada e a saída do posto de gasolina. Parece fácil, mas não é. O tempo passa, os carros passam e os guardas parecem se divertir com a situação. Continuamos firmes e fortes. Uma das dicas mais importantes pra quem quer viajar de carona é não desistir. E outra, que aprendemos em El Calafate, é pedir pra qualquer um. Depois que parar, você escolhe se vale a pena ir com ele ou não.

O tempo está ameno. Nublado, com um frio suportável. O problema é a fome, já é quase horário do almoço.

Chapolas aborda um tiozinho que está saindo do posto com seu caminhãozinho. Vai até Trelew. Perfeito! É uma cidade antes de Puerto Madryn, onde fiquei esperando meu cartão e mergulhei com os leões-marinhos.

Alejandro, com seus 60 anos, é mais um caminhoneiro sofrido. Sempre foi motorista. Já dirigiu ônibus, mas não gosta. Muita responsabilidade e ainda tem que seguir um roteiro.

– Com meu caminhão, se bater o sono, paro aqui – diz, apontando pro acostamento – e durmo, a hora que quiser.

A carroceria está vazia. Vai até Trelew, onde vive, dorme umas quatro horas enquanto carregam o caminhão, e volta pra estrada. Vive assim há pelo menos 40 anos.

Na estrada vazia e sem muitas curvas, engata a quinta marcha, aperta um botão e tira o pé do acelerador. O caminhão permanece a 100 km/h. Assim, fica mais à vontade. Cigarros, um atrás do outro.

– Fumo dois maços por dia. É a única coisa que dá pra fazer dirigindo. Nunca precisei ir ao médico.

Perguntamos se vive com a família em Trelew.

– Vivo com minha esposa. Meu filho morreu há quatro anos, quando tinha 28. Também era caminhoneiro, bateu nessa estrada, mais à frente.

Desejamos nossos sentimentos, e o assunto muda. Futebol, Pelé, Maradona, Copa do Mundo. Enquanto conversamos, ele esquenta água no fogareiro para o mate. Continua fumando. Pergunta para onde estamos indo. Não se conforma que estamos aqui e não vamos a Esquel, El Bolsón, Bariloche. Ainda mais quando falamos que já conhecemos Puerto Madryn e Bahía Blanca, por onde planejamos voltar.

– Pela Ruta 3, até chegar em Buenos Aires, é só essa paisagem, não tem vida. A Ruta 25 a partir de Trelew, tudo é lindo. Tem a Cordilheira dos Andes, árvores, verde. É quase a mesma distância, podem pedir carona lá também.

Tem razão. Em vez de continuarmos subindo pelo mesmo caminho que descemos, quebramos pelo oeste. Já queria conhecer lá, por que não?

No rádio, toca uma música chata. Alejandro desliga, penso que também não lhe agrada. Olho pra ele, está fazendo o sinal da cruz. Aponta pra frente.

– Foi aqui que meu filho morreu. Capotou o caminhão. Não dá pra esquecer. Você pode perder seu pai, sua mãe, um irmão. Mas um filho, não dá pra superar. Minha mulher ficava o dia inteiro no cemitério.

Pergunto se ela já está bem agora. Ele olha pra mim com uma expressão vazia, sem emoção ou sentimentos.

– Não tem como ficar bem. Nunca mais, até morrer. Às vezes ela desata a chorar e não para mais. Comprei um cavalo, uns bichinhos pra ela cuidar e passar o tempo. É bom, mas não vai ficar bem. Quando eu passo por aqui à noite, como hoje quando voltar, encosto o caminhão, desço e começo a chorar. Só saio quando não tenho mais lágrimas.

Dirige olhando pra frente. Não pra estrada. Pro infinito. Segue viagem na esperança de encontrar um lugar onde acabe seu sofrimento. É uma dor palpável. A cabine do caminhão é um silêncio total. Um arco-íris aparece de ponta a ponta no deserto, em uma demonstração de que sempre há cor na imensidão cinza da tristeza.

Em Trelew, esgotados, fomos direto ao hostel. O mais simples e desanimado até agora. As poucas pessoas que estão aqui, quatro ou cinco, vieram para trabalhar. Nada de festa, só uma cervejinha pra jantar e aproveitar a vida.

Confira o trajeto no MAPA

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~ por rocisman em 27/02/2013.

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