Mochilão América do Sul – Dia 59

Dia 59 – 10/06/12 – domingo (Bahía Blanca)

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Para ouvir:

Ozzy Osbourne – Crazy Train

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O domingo acordou com cara de despedida. Pouco a pouco, todos levantam e se juntam aos outros na mesa da cozinha. E aqui ficamos todos. Almoço, café da tarde, TV, conversa, Skype. O relógio não tem pressa. Mapas e folhetos sobre diversos destinos cobrem a mesa. O número de cidades e a vontade de conhecer todos são enormes, comparados ao tempo e, principalmente, ao dinheiro disponíveis. É a velha história do quanto mais se tem, mais se quer. Não tem mal nenhum a ambição, desde que controlada. Caso contrário, a obsessão entra no jogo e acaba com a brincadeira.

Antes de ir embora, peço a Ivan que dê uma canjinha com seu violão. Ele toca música clássica russa, conhecida localmente como música.

Na estação, me despeço de todos e subo no trem. De novo na primeira classe, sem calefação. Dessa vez não foi por escolha, não tinha mais lugar na classe Pullman, a melhor e só vinte pesos mais cara.

Começou bem! Minha poltrona é a 17. Procuro a numeração. 13 e 14. 15 e 16. 21 e 22. Não tem a plaquinha nas fileiras 17, 18, 19 e 20. Pela lógica, é a que fica atrás da 13 e 14. Pergunto ao casal mal-humorado que está sentado aí, tenho um não como resposta. Os jovens que estão nas poltronas ao lado sem numeração também dizem que ali não é. Paciência. Sento na poltrona 15 e se o tiozinho responsável por conferir as passagens reclamar, falo que não existe a merda da poltrona 17 e, se ele sabe qual é, que expulse os invasores dela.

Faz frio. O trem é velho, mal-conservado e sujo. Quero tirar uma foto, mas não dá. Mesmo com luvas, minhas mãos estão geladas. Não dá pra ver a paisagem lá fora. Menos pela escuridão, mais pelo pó impregnado no vidro. Fecho a persiana de alumínio com a ilusão de que ela bloqueará o vento que entra por alguma fresta misteriosa. Deve ter uma fenda no espaço-tempo que leva até a Era do Gelo.

Pelo menos o silêncio predomina. Exceto pelo ruído constante das rodas do trem, por um choro intermitente de um bebê e pela voz de uma criança andando pelo corredor.

Olha só que também está aqui. A Lei de Murphy. É só falar do contentamento por estar relativamente tranquilo, e pronto! Lá se vai a paz. Umas 6 ou 7 mulheres e meninas com um carrinho de bebê entram no trem fazendo aquela algazarra legal. Também devem ter vindo pela mesma porta tridimensional do vento. Quase todas têm o cabelo enrolado no topo da cabeça, um coque à lá Pedrita, dos Flintstones. Só falta o ossinho.

Faz mais frio. Estou com uma camiseta, blusa de moletom, jaqueta com fleece e outra jaqueta pesadona por cima, a que ganhei do canadense em Puerto Madryn; o gorro do Chaves e luvas; uma calça tipo mijão como segunda pele e outra jeans. Não é o suficiente.

No pé, a meia térmica conserva o calor, mas ao contrário. Conserva meus pés gelados. Coloco outra meia por cima. Funciona tanto quanto se eu os colocasse em um balde com gelo. São onze e meia, a viagem tá só começando.

Bate uma vontade de ir ao banheiro. Bom, ao menos meus órgãos ainda estão trabalhando. A privada não tem fundo. Mijo vendo um eixo girando e os trilhos passando. Tava precisando de um pouco de diversão mesmo.

Volto pra minha poltrona, extremamente gelada. Todos passageiros têm seu cobertorzinho, a não se eu e a tiazinha se cagando de frio na fileira oposta à minha.

Entre um cochilo e outro, mais duas idas à privada sem fim e algumas tentativas de sentir meus pés, o trem chega à estação Retiro, em Buenos Aires, às 10 da manhã. Espero que tenha alguém me esperando calorosamente com um lança-chamas.

Veja o trajeto percorrido aqui

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~ por rocisman em 01/07/2013.

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